segunda-feira, 15 de maio de 2017

DESPERTANDO O CONHECIMENTO - QUAL SEXO DO SEU CÉREBRO - MASCULINO OU FEMININO?

UMA VIAGEM AO CÉREBRO HUMANO



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Essas divergências não são apenas idiossincrasias curiosas ;Elas suscitam a possibilidade de precisarmos desenvolver tratamentos específicos de acordo com o sexo para problemas como depressão, vício, esquizofrenia e transtorno do stress pós-traumático.Estudiosos da estrutura e do funcionamento do cérebro devem levar em consideração o sexo de seus objetos de pesquisa ao analisar dados – e incluir tanto homens quanto mulheres em estudos futuros, para evitar resultados enganosos.
Escultura Cerebral
Até não muito tempo atrás, os neurocientistas acreditavam que as diferenças no cérebro de sexos diferentes se limitavam às regiões responsáveis pelo comportamento de acasalamento. Em um artigo da Scientific American de 1966, intitulado “Sex differences in the brain” (Diferenças sexuais no cérebro)Seymour Levine, da Universidade Stanford, descreveu como os hormônios sexuais ajudam a comandar comportamentos reprodutivos diferentes em camundongos: Levine só mencionava uma região do cérebro em sua análise: o hipotálamo, pequena estrutura na base do cérebro envolvida na regulação da produção de hormônios e no controle de comportamentos básicos como comer, beber e fazer sexo. 

Uma geração inteira de neurocientistas amadureceu acreditando que as “diferenças sexuais no cérebro” diziam respeito apenas aos hormônios sexuais e ao hipotálamo.Essa visão foi posta de lado por uma onda de descobertas que ressaltam a influência do gênero em várias áreas da cognição e do comportamento, incluindo memória, emoção, visão, audição, processamento de rostos e resposta do cérebro aos hormônios do stress. 
Esse avanço se acelerou nos últimos dez anos com o uso de técnicas de imageamento sofisticadas e não-invasivas, como a tomografia por emissão de pósitrons (PET) e a ressonância magnética funcional (RMf), com as quais é possível observar o cérebro em ação.

Tais experimentos com imagens revelam que as variações anatômicas ocorrem em uma série de regiões do cérebro. Jill M. Goldstein, da Faculdade de Medicina de Harvard, e colegas, por exemplo, usaram a ressonância magnética para medir áreas corticais e subcorticais. Os pesquisadores descobriram que determinadas partes do córtex frontal – envolvido em muitas funções cognitivas importantes – são proporcionalmente mais volumosas em mulheres do que em homens, assim como partes do córtex límbico, envolvido nas reações emocionais. 

Em homens, por outro lado, partes do córtex parietal, ligado à percepção espacial, são maiores do que nas mulheres, assim como a amígdala, estrutura em forma de amêndoa que reage a informações que despertam emoções – qualquer coisa que faça o coração disparar e a adrenalina fluir pelo corpo.

Normalmente, acredita-se que as diferenças no tamanho das estruturas cerebrais reflitam sua importância relativa para o animal. Por exemplo, os primatas usam mais a visão do que o olfato; nos camundongos, ocorre o contrário. Em conseqüência, o cérebro dos primatas possui regiões proporcionalmente maiores dedicadas à visão, e os camundongos devotam mais espaço ao olfato. A existência de disparidades anatômicas disseminadas entre homens e mulheres sugere, portanto, que o sexo realmente tenha influência no funcionamento do cérebro.

Outras pesquisas estão encontrando diferenças anatômicas ligadas ao sexo no nível celular. Sandra Witelson, da Universidade McMaster, por exemplo, descobriu que as mulheres possuem densidade maior de neurônios em áreas do córtex do lobo temporal associadas ao processamento e à compreensão da linguagem. 
Ao contar os neurônios de amostras de autópsias, os pesquisadores notaram que, das seis camadas do córtex, duas apresentavam mais neurônios por unidade de volume em mulheres do que em homens. Descobertas semelhantes foram registradas posteriormente no lobo frontal. De posse dessas informações, os neurocientistas podem agora analisar se as diferenças sexuais no número de neurônios correspondem a diferenças na capacidade cognitiva – examinando, por exemplo, se o aumento na densidade do córtex auditivo feminino está relacionada ao melhor desempenho em testes de fluência verbal.
Inclinações Inatas
Essa diversidade anatômica pode ser causada, em grande parte, pela atividade dos hormônios sexuais que banham o cérebro do feto. Esses esteróides ajudam a coordenar a organização e as conexões cerebrais durante o desenvolvimento, e influenciam a estrutura e a densidade neuronal de várias regiões. Curiosamente, as áreas cerebrais que Goldstein descobriu diferirem entre homens e mulheres são aquelas em que os animais concentram o maior número de receptores de hormônios sexuais durante o desenvolvimento. A correspondência entre o tamanho da região do cérebro em adultos e a ação de esteróides sexuais no útero indica que pelo menos algumas das diferenças sexuais não resultam de influências sociais ou de alterações hormonais relacionadas à puberdade. Elas estão ali desde o nascimento.
O EXPERIMENTO COMPORTAMENTAL COM MACACOS
Vários estudos comportamentais contribuem para aumentar as evidências de que algumas das diferenças sexuais no cérebro surgem antes mesmo que o bebê comece a respirar. Ao longo dos anos, cientistas demonstraram que, quando escolhem brinquedos, meninas e meninos tomam rumos diferentes. Os meninos tendem a gravitar em torno de bolas ou carrinhos, enquanto as meninas normalmente pegam bonecas. Mas ninguém sabia dizer com certeza se essas preferências eram determinadas pela cultura ou pela biologia cerebral inata.
Para tratar dessa questão, Melissa Hines, da Universidade da Cidade de Londres, e Gerianne M. Alexander, da Universidade A&M do Texas, recorreram aos macacos. As pesquisadoras apresentaram uma variedade de brinquedos a um grupo de macacos vervet, incluindo bonecas de pano, caminhões e alguns itens neutros como livros ilustrados. Elas observaram que os macacos machos passaram mais tempo brincando com “brinquedos de menino” do que as fêmeas, e que as macacas passaram mais tempo interagindo com os que as meninas costumam preferir. Ambos passaram o mesmo período de tempo mexendo nos livros e em outros brinquedos unissex.
Como é pouco provável que os macacos  sejam influenciados pelas pressões sociais da cultura humana, os resultados significam que a preferência das crianças por certos brinquedos é conseqüência, pelo menos em parte, de diferenças biológicas inatas. Supõe-se que a divergência, como todas as diferenças anatômicas do cérebro entre machos e fêmeas, tenha se originado de pressões seletivas durante a evolução. No caso do estudo com brinquedos, os machos – tanto humanos quanto macacos – preferem brinquedos que possam se locomover no espaço e que proporcionem brincadeiras mais brutas. É razoável especular que essas características podem estar relacionadas a comportamentos úteis para a caça ou para conseguir uma parceira. Da mesma maneira, também é possível acreditar na hipótese de que as fêmeas escolham os brinquedos que lhes permitam treinar as habilidades de que um dia precisarão para criar sua prole.
Simon Baron-Cohen e sua equipe da Universidade de Cambridge abordaram a questão da influência da Natureza versus a influência da educação nas diferenças sexuais de modo diverso, mas tão criativo quanto. Muitos pesquisadores descrevem as disparidades em termos de quão “interessados em pessoas” são os bebês meninos e meninas. Baron-Cohen e sua aluna Svetlana Lutchmaya, por exemplo, descobriram que meninas de um ano de idade passam mais tempo olhando para as mães do que os meninos da mesma idade. E, quando se dá a esses bebês a opção de a qual filme assistir, as garotas olham mais para o vídeo de um rosto, enquanto os garotos tendem a olhar para o de carros.
A EDUCAÇÃO COMO FATOR PREPONDERANTE DAS PREFERÊNCIAS
É evidente que essas diferenças ainda podem ser atribuídas à maneira como os adultos tratam meninos e meninas, ou ao modo como brincam com eles. Para eliminar essa possibilidade, Baron-Cohen levou a câmera de vídeo para uma maternidade, a fim de observar as preferências de bebês de um dia de vida. Estes olhavam ou para o rosto agradável de uma estudante ou para um móbile com formato semelhante ao do rosto da estudante, mas com os traços faciais embaralhados. Para evitar qualquer interferência, os pesquisadores não sabiam qual era o sexo de cada bebê durante o teste. Quando assistiram às gravações, descobriram que as meninas passaram mais tempo olhando para o rosto intacto, enquanto os meninos olharam mais para o objeto mecânico. Essa diferença no interesse social ficou evidente no primeiro dia de vida. Portanto, parece mesmo que saímos do útero já com algumas diferenças sexuais cognitivas.
SOB STRESS
Em muitos casos, a diferença sexual na química e na constituição do cérebro influencia o modo como machos e fêmeas reagem ao ambiente ou a acontecimentos estressantes – e se lembram deles. Vejamos, por exemplo, a amígdala, estrutura cerebral proporcionalmente maior nas fêmeas. Para analisar se as amígdalas de homens e mulheres realmente respondem de modo diferente ao stress, Katharina Braun, da Universidade Otto von Guericke, em Magdeburgo, Alemanha, afastou por um curto período uma ninhada de filhotes de ratos da mãe. Para esses roedores que vivem em grandes colônias, uma separação temporária é bastante desagradável. Os pesquisadores então mediram a concentração de receptores de serotonina, um neurotransmissor essencial para a mediação do comportamento emotivo em várias regiões do cérebro.A equipe fez com que os filhotes ouvissem o chamado da mãe durante o período de separação, e descobriu que essa informação auditiva elevou a concentração de receptores de serotonina na amígdala dos machos, mas a reduziu nas fêmeas. Embora seja difícil tirar conclusões desse estudo para o comportamento humano, ele observa que, se algo semelhante acontecer com as crianças, a ansiedade da separação pode afetar de forma diferente meninos e meninas. Experiências como essas são necessárias se quisermos entender por que, por exemplo, os transtornos de ansiedade são de longe mais prevalentes em meninas do que em meninos.Outra região do cérebro que hoje sabemos diferir entre os sexos em termos de anatomia e em sua resposta ao stress é o hipocampo, estrutura essencial para o armazenamento de lembranças e para o mapeamento espacial do ambiente.
AS DIFERENÇAS ANATÔMICAS O CÉREBRO E O COMPORTAMENTO
As técnicas de imagem demonstram de maneira consistente que o hipocampo é maior nas mulheres do que nos homens. Essas divergências anatômicas podem muito bem estar ligadas de alguma forma à diferença no modo como homens e mulheres se orientam. Vários estudos sugerem que os homens tendem a se orientar estimando a distância e sua posição no espaço, enquanto as mulheres se orientam observando pontos de referência. Curiosamente, existe uma diferença entre os sexos parecida nos camundongos. 

Os machos tendem a atravessar labirintos utilizando dados direcionais e posicionais, enquanto as fêmeas percorrem os mesmos labirintos usando pontos de referência disponíveis. 

Os pesquisadores ainda não conseguiram comprovar, porém, que os camundongos machos são menos propensos a “parar para pedir informações”.Mas os roedores machos às vezes aprendem mesmo melhor sob stress. Tracey J. Shors, da Universidade Rutgers, observou que uma breve exposição a choques de um segundo na cauda melhorou a execução de uma tarefa aprendida e reduziu a densidade das conexões dendríticas a outros neurônios em machos. 

Nas fêmeas, o choque prejudicou a performance e reduziu a densidade das conexões. Descobertas como essas, têm implicações sociais interessantes. Quanto mais descobrimos como os mecanismos de aprendizado diferem entre os sexos, maior a probabilidade de que tenhamos de levar em conta que os ambientes de aprendizado ideais possam ser diferentes para meninos e meninas.

MAIS EXPERIMENTOS REVELADORES
Embora o hipocampo do camundongo fêmea demonstre um decréscimo na resposta ao stress agudo, ele parece ser mais resistente do que seu correspondente masculino diante do crônico. Cheryl D. Conrad, da Universidade do Estado do Arizona, confinou camundongos em uma gaiola por seis horas – situação perturbadora para os roedores. Os pesquisadores analisaram então quão vulneráveis seus neurônios do hipocampo eram ao ataque mortal de uma neurotoxina – uma medida padrão do efeito do stress nessas células. Eles notaram que o confinamento crônico tornou as células hipocampais dos machos mais suscetíveis à toxina, mas não teve nenhum efeito sobre a vulnerabilidade das fêmeas. Essas conclusões, e outras similares, sugerem que, nos casos de dano cerebral, as fêmeas estão mais bem equipadas do que os machos para tolerar o stress crônico.
PANORAMA GERAL
Pesquisando como o cérebro lida com situações estressantes e se lembra delas,  descobrimos que homens e mulheres diferem na maneira como armazenam as lembranças de incidentes que despertam emoções – um processo que envolve a ativação da amígdala. Em um dos primeiros experimentos, mostramos a voluntários uma série de filmes de violência explícita, enquanto medimos sua atividade cerebral por tomografia PET. Algumas semanas depois, demos a eles um questionário para saber do que se lembravam.Descobrimos que o número de filmes dos quais conseguiam se lembrar estava relacionado a quão ativa estava a amígdala durante a exibição. Trabalhos posteriores feitos por nosso laboratório e por outros confirmaram essa conclusão geral.Foi constatado que a  ativação da amígdala, em alguns estudos, envolvia apenas o hemisfério direito, e em outros envolvia sómente o hemisfério esquerdo. Perceberam então que os experimentos em que a amígdala direita se ativou foram aqueles que utilizavam apenas homens; aqueles em que só a amígdala esquerda se ativou foram feitos com mulheres. Desde então, três estudos subseqüentes confirmaram essa diferença, de como homens e mulheres lidam com lembranças emotivas.
Para tentar descobrir o significado dessa disparidade, recorremos a uma teoria de um século de idade, segundo a qual o hemisfério direito tende a processar os aspectos básico de uma situação, enquanto o esquerdo processa os detalhes. Se essa concepção for verdadeira, argumentamos, uma droga que prejudique a atividade da amígdala deveria reduzir a capacidade do homem de se lembrar da essência de um acontecimento emotivo (ao entorpecer a amígdala direita), enquanto, nas mulheres, afetaria sua capacidade de recordar detalhes específicos (ao entorpecer a amígdala esquerda).
Essa droga é o proponolol, da classe dos betabloqueadores. Demos a substância a homens e mulheres antes que assistissem a uma curta exibição de slides sobre um garotinho que sofre um terrível acidente ao caminhar ao lado da mãe. Uma semana depois, testamos a memória deles. Os resultados mostraram que o propanolol tornou mais difícil para os homens lembrar os aspectos mais gerais, ou a essência da história – que o menino tinha sido atropelado por um carro, por exemplo. Nas mulheres, o propanolol fez o oposto, atrapalhando as lembranças de detalhes periféricos – que o menino estava carregando uma bola de futebol.
Em pesquisas mais recentes, descobrimos que podemos detectar quase imediatamente uma diferença de hemisfério entre os sexos em resposta a material emotivo. Voluntários que observam fotografias emocionalmente desagradáveis reagem em 300 milissegundos – resposta que se apresenta como um pico no registro da atividade elétrica do cérebro, antes de qualquer interpretação consciente da imagem. Com Antonella Gasbarri, da Universidade de L´Aquila, na Itália, descobrimos que, nos homens, esse rápido pico (denominado resposta P300) é mais exacerbado no hemisfério direito; nas mulheres, é maior no esquerdo.
Essas descobertas podem ter repercussões no tratamento do transtorno de stress pós-traumático. Pesquisas anteriores feitas por Gustav Schelling e seus colaboradores, da Universidade Ludwig Maximilian, na Alemanha, já tinham estabelecido que drogas como o propanolol reduzem a lembrança de situações traumáticas quando administradas junto com os tratamentos normais nas unidades de terapia intensiva. Estimulados por nossas conclusões, eles descobriram que, pelo menos nessas unidades, os betabloqueadores reduzem as lembranças de fatos traumáticos em mulheres, mas não em homens. Mesmo na UTI, portanto, os médicos podem ter de levar em conta o sexo dos pacientes ao prescrever medicamentos.
Sexo e Transtornos Mentais
O stress pós-traumático não é o único distúrbio que parece agir de maneira diferente entre homens e mulheres. Um estudo com PET feito por Mirko Diksic, na Universidade McGill, mostrou que a produção de serotonina é 52% maior em homens do que em mulheres. Isso pode ajudar a explicar por que elas estão mais sujeitas à depressão – problema normalmente tratado com drogas que elevam a concentração de serotonina.Situação parecida pode ocorrer com a dependência. Nesse caso, o neurotransmissor em questão é a dopamina – substância envolvida na sensação de prazer associada ao uso de drogas. Em estudo com camundongos, Jill B. Becker e pesquisadores da Universidade de Michigan em Ann Arbor descobriram que, nas fêmeas, o estrógeno faz aumentar a liberação de dopamina em áreas do cérebro importantes na regulação do comportamento de procura pela droga. Além disso, o efeito do hormônio é de longa duração, tornando as fêmeas propensas a buscar cocaína semanas depois de ter recebido a droga. Essas diferenças podem explicar por que as mulheres se viciam com mais rapidez do que os homens.
ALGUMAS ANOMALIAS DIFEREM ENTRE HOMENS E MULHERES
Determinadas anomalias no cérebro que estão por trás da esquizofrenia também parecem diferir em homens e mulheres. Ruben e Raquel Gur, da Universidade da Pensilvânia, mediram o tamanho do córtex orbitofrontal, região relacionada ao controle das emoções, e o compararam à dimensão da amígdala, mais envolvida nas reações emocionais. Descobriram que, nas mulheres, a proporção orbitofrontal/amígdala é maior do que nos homens. Essa conclusão pode dar margem a especulações de que as mulheres talvez sejam, em média, mais capazes de controlar suas reações emocionais. Em outros experimentos, pesquisadores descobriram que esse “equilíbro” está alterado na esquizofrenia, embora de forma não idêntica em homens e mulheres. As mulheres com esquizofrenia têm proporção orbitofrontal/amígdala menor do que as saudáveis, como seria de esperar. Mas, estranhamente, os homens esquizofrênicos têm essa mesma proporção aumentada em comparação com os saudáveis, o que pode significar a necessidade de tratamento diferenciado do das mulheres.
Sexo Faz Diferença
Em abrangente relatório de 2001 sobre diferenças sexuais na saúde humana, a Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos afirmou que o sexo faz diferença. “O fato de ser macho ou fêmea é uma variável básica humana importante, que deve ser levada em conta ao projetar e analisar estudos em todas as áreas e em todos os níveis de pesquisas biomédicas e relacionadas à saúde.”Os neurocientistas ainda estão longe de identificar todas as diferenças ligadas ao sexo no cérebro e sua influência no processo cognitivo e na propensão a problemas cerebrais. De qualquer maneira, as pesquisas realizadas até hoje demonstram com certeza que as diferenças vão muito além do hipotálamo e do comportamento ligado ao acasalamento. Cientistas e clínicos nem sempre sabem exatamente qual é o melhor meio de avançar para decifrar toda a influência do sexo no cérebro, no comportamento e na resposta a medicamentos. Mas, um número cada vez maior de neurocientistas concorda que avaliar um sexo apenas e aprender sobre ambos já não é mais opção.
QUAL O SEXO DO SEU CÉREBRO?
A diferença entre os corpos dos homens e das mulheres estão além da aparência e dos órgãos sexuais. A ciência detectou que até o cérebro apresenta características femininas ou masculinas. Essa diferença neurológica gera diferenças de comportamentos, sentimentos e modos de pensar entre homens e mulheres.
NEUROSEXISMO
Você consegue saber se seu amigo está triste ou irritado só de olhar para ele? Essa é uma característica de um cérebro feminino. Mas um homem também pode ter essa sensibilidade e outros comportamentos geralmente ligados a um cérebro feminino. Isso porque a sexualidade cerebral não está ligada diretamente ao sexo do corpo. 
“O sexo do cérebro é determinado pela quantidade de testosterona (hormônio masculino)a que o feto fica exposto no útero. Em geral, homens recebem doses maiores do que as mulheres. Mas isso varia e nós ainda não sabemos exatamente por quê”, diz a neuropsicologista Anne Moir, da Universidade de Oxford, na Inglaterra.
AS RAÍZES ESTÃO NA EVOLUÇÃO
A diferença entre o cérebro dos dois gêneros tem raízes evolutivas. Segundo Moir, durante o desenvolvimento dos seres humanos, como o homem era o caçador, desenvolveu um cérebro com habilidades manuais, visuais e coordenação para construir ferramentas. Por isso, um cérebro masculino tem mais habilidades funcionais. Já as mulheres preparavam os alimentos e cuidavam dos mais novos. Elas tinham que entender os bebês, ler sua linguagem corporal e ajudá-los a sobreviver. Elas também tinham que se relacionar com as outras mulheres do grupo e dependiam disso para sobreviver na comunidade e, por isso, desenvolveram um cérebro mais social. Os homens, por sua vez, lidavam com um grupo de caçadores, não precisavam tanto um do outro e se comunicavam menos, apenas com sinais.Moir acredita que a diferença de sexo entre cérebro e corpo pode estar ligada às causas do homossexualismo. 
“Se a concentração de testosterona no útero está mais baixa do que o padrão para os homens, então o ‘centro sexual’ do cérebro será feminino e esse homem sentirá atração por outros homens. Se a concentração desse hormônio estiver alta, o ‘centro sexual’ será masculino e ele sentirá atração por mulheres”, diz Moir.
Faça o teste
 Reprodução
Moir está desenvolvendo uma linha de pesquisa para entender melhor as diferenças neurológicas entre homens e mulheres e, para isso, desenvolveu um teste que mostra numa escala de 1 a 20 qual é o sexo do cérebro. O número 1 representa o cérebro mais masculino possível e o 20, o mais feminino. Quem se aproxima do 10 tem um cérebro misto. Segundo Moir, esse último caso é muito comum em suas pesquisas.Além do teste, outro fator que pode mostrar o sexo do cérebro de uma pessoa, segundo os estudos de Moir, é a medida dos dedos das mãos. Segundo os estudos da inglesa, geralmente, quem tem cérebro masculino tem o dedo indicador menor que o anelar (olhando para a mão de frente para a palma). Já cérebros femininos são associados a dedos indicadores do mesmo comprimento que os anelares. Mas isso não é uma regra sem exceção, como praticamente tudo na biologia. A pesquisadora diz que, às vezes, uma mesma pessoa tem uma mão nos padrões do cérebro masculino e outra do feminino e isso exige mais estudos para entender a organização do cérebro.
Sabe como reage o cérebro masculino ao rosto feminino? E ao masculino?
Um belo rosto feminino tem, sobre o cérebro de um homem jovem, o mesmo efeito provocado por chocolate, dinheiro ou cocaína. Isto é o que conclui um trabalho realizado por um grupo de investigadores da Universidade de Harvard.
O estudo realizado pela equipe coordenada por Itzhak Aharon baseou-se na análise de imagens, obtidas por ressonância magnética, do cérebro de homens jovens heterossexuais durante a visualização de fotografias de vários rostos, masculinos e femininos. Os investigadores pediram aos voluntários que classificassem os rostos à medida que os viam.
OS RESULTADOS
A primeira revelação do estudo, publicado na última edição da revista Neuron, desmistifica um tabu masculino: os homens heterossexuais também são capazes de considerar o rosto de outro homem como bonito. No entanto, e quando se fala de rostos, apenas um belo rosto feminino é capaz de ativar zonas específicas de um cérebro masculino.
Quando os voluntários viram as fotos de diversos rostos, apenas os femininos classificados como bonitos estimularam a atividade das zonas do cérebro relacionadas com as sensações de recompensa associadas aos alimentos, ao dinheiro ou às drogas.

Na investigação, os cientistas pediram a um grupo de homens heterossexuais para classificarem os rostos, masculinos e femininos, que lhes eram mostrados de acordo com a atração que sentiam pelas suas feições. O efeito único de um belo rosto feminino ocorreu apesar do fato dos voluntários também terem classificado alguns rostos masculinos como bonitos.Hasn Breiter, do Hospital Geral de Massachusetts, Boston (EUA), um dos colaboradores neste estudo afirmou num comunicado de imprensa que “parece existir uma diferença entre ‘aquilo que o cérebro gosta’ e ‘aquilo que o cérebro quer’”, sendo que quando o que ‘o cérebro quer’ é obtido, passa a ser considerado como uma recompensa.
QUE TAL ESTE ROSTO;BONITO OU NORMAL?
Na primeira etapa deste trabalho, os investigadores, antes de pedirem aos voluntários para classificarem os rostos (e sem o seu conhecimento) organizaram-nos em duas categorias gerais como ‘bonitos’ e ‘normais’. As classificações dos voluntários foram concordantes com as categorias organizadas pelos cientistas. Além disso, as classificações atribuídas aos rostos masculinos atraentes foram similares às atribuídas aos rostos femininos atraentes.
Na etapa seguinte do estudo, os investigadores controlaram o tempo dedicado à visualização de cada fotografia: para que a fotografia pudesse ser visualizada, o homem tinha de manter um botão premido. Sempre que o botão fosse libertado, a fotografia mudava. Os investigadores verificaram que os voluntários faziam um esforço para ver os rostos femininos bonitos por mais tempo e, relativamente aos outros rostos, eles tentavam apenas fazer com que as suas fotografias passassem mais rápidamente.
Finalmente, na terceira etapa do estudo, os investigadores fizeram exames de ressonância magnética durante a visualização das fotografias e foi nesta fase do trabalho que os cientistas constataram que apenas os rostos femininos atraentes ativaram o “circuito de recompensa” do cérebro.
 CÉREBRO MASCULINO TEM AVERSÃO PELOS ROSTOS MASCULINOS
A equipe coordenada por Aharon relata, no artigo publicado no Neuron , que “a investigação revelou um fato particularmente interessante: os rostos dos homens classificados como atraentes desencadearam uma resposta que poderá ser considerada como uma resposta de aversão, embora eles tenham sido reconhecidos pelos próprios voluntários como atraentes.”Outra colaboradora deste estudo, Nancy Etcoff, destaca que esta pesquisa confirma outros trabalhos anteriores que sugerem que “a percepção humana da beleza pode ser inata.”Aharon e seus colaboradores realçam que factores como a experiência, a aprendizagem e as características pessoais de cada indivíduo têm um impacto na atração entre pessoas em particular mas estes resultados mostram que esta resposta básica de compensação está profundamente associada à natureza humana.
A GINÁSTICA PARA SEU CÉREBRO
Voce está muito concentrado.Não tira o olho de um quadrado branco bem no meio da tela do computador. A qualquer momento, uma letra vai piscar dentro da caixinha. No mesmo instante, um passarinho vai aparecer em algum canto da tela. Sua tarefa é clicar na ave com o mouse para em seguida digitar a letra no quadrado. Você está jogando um game chamado Birdwatching (Observando Pássaros) e, está exercitando sua mente. Quanto mais praticar, melhor e mais rápido seu cérebro ficará – pelo menos é o que lhe garantiram. A teoria é simples: seu cérebro funciona como um músculo. Quanto mais usá-lo, mais forte ele ficará.
Para quem acredita nessa afirmação, existem nos EUA e na Europa centenas de games para acelerar o cérebro. No Brasil, os produtos mais conhecidos e os únicos distribuídos são os games Brain Age 1 e 2 e o Big Brain Academy, disponíveis para os consoles DS e Wii, da Nintendo. Eles foram desenvolvidos pelo neurocientista japonês Ryuta Kawashima, do Instituto do Desenvolvimento, Envelhecimento e Câncer da Universidade Tohoku, em Sendai, ao norte de Tóquio.Todos os fabricantes de games de exercícios mentais defendem a eficácia de seus produtos. Os argumentos são básicamente dois. Eles oferecem “melhoria do funcionamento cerebral” – como atenção, memória e velocidade de processamento – ou “retardamento do declínio inevitável decorrente do envelhecimento”. As empresas dizem que seus programas são baseados nas mais recentes evidências científicas.Em dois anos, o mercado de jogos cerebrais cresceu de US$ 2 milhões para US$ 80 milhões nos EUA;(nota pessoal-vale dizer que ficar na frente de um computador jogando para exercitar o cérebrotambém pode trazer muitas doenças-hipertensão,problemas  na visão, aumento do colesterol por falta de exercícios, LED,problema de obesidade,má postura e maus hábitos alimentares.Devemos aprender a dosar as coisas e também exercitar nosso cérebro com s dicas da parte 2 da série)
Diante dessa afirmação, vale a pena investir no treinamento cerebral? Você corre o risco de ser passado para trás por alguém que se tornou mais esperto porque aderiu à nova mania? Infelizmente para os candidatos a gênio, não existem respostas simples. Por um lado, sobram estudos sugerindo que algumas funções cognitivas podem ser exercitadas. Em compensação, poucos jogos oferecem evidências de que são capazes de melhorar o desempenho cerebral. 
“Só existe um jeito de saber se um produto funciona”, afirma o sueco Torkel Klingberg, professor de Neurociência Cognitiva do Instituto Karolinska, em Estocolmo. “É testando de forma controlada e científica, e divulgando os resultados numa publicação acadêmica. Não é suficiente dizer que tal produto é inspirado em pesquisas. É preciso testá-lo. Infelizmente, a imensa maioria dos produtos de treinamento nunca passou por isso, e portanto não são confiáveis.” Em 2001, Torkel fundou a Cogmed, que vende um programa para exercitar a memória e que – afirma a empresa – melhorou de forma significativa as capacidades de concentração e de solução de problemas de 80% dos usuários.
O sucesso da Nintendo é o Big Brain Academy, mais voltado para o mercado de entretenimento. O game apresenta uma bateria de testes divertidos e, no final, dependendo de sua pontuação, calcula o “peso” de seu cérebro, em gramas. Um produto concorrente é o Brain Challenge, da UbiSoft. 
“Através de testes, o jogo vai calculando a porcentagem do cérebro que você usa. O objetivo é chegar a 100% e usar toda a capacidade craniana”.
Como acontece com qualquer videogame, quanto mais se joga, melhor o desempenho. A explicação para isso é a idéia de que o cérebro pode ser exercitado, como um músculo. Diversos estudos científicos sustentam essa hipótese, chamada de “use-o ou perca-o”. 
Nos últimos 15 anos, os neurocientistas reuniram evidências de que funções cognitivas podem ser melhoradas com o treinamento, não apenas entre os idosos, mas também entre jovens e adultos. Estudos mostram que desafiar uma parte específica do cérebro encoraja essa região a crescer e se desenvolver.

Confunda sua Cognição

Olhe a garota que gira. Você a vê girando em sentido horário ou anti-horário? Aparentemente gira em sentido anti-horário, mas podemos inverter esse sentido. 
É difícil, mas no final se consegue.A garota que gira é uma forma de uma ilusão de uma silhueta que gira. A imagem não está objetivamente “girando” num sentido ou outro. É uma imagem bidimensional que simplesmente muda de lado 
constantemente. Nossos processos visuais assumem que estamos olhando para uma imagem em 3D, utilizando-se de pistas para isso. Sem as pistas adequadas, o cérebro decide arbitrariamente o que melhor se encaixa – girar em sentido horário ou anti-horário. 
E uma vez escolhio a “melhor “maneira, a ilusão é completa – vemos uma imagem em 3D girando a partir de algo 2D.Olhar ao redor da imagem, focando na sombra ou alguma parte dela, força seu sistema visual a reconstruir a imagem, o qual pode escolher a direção contrária, e súbitamente a imagem irá girar na direção oposta. Outro mecanismo proposto pelos psicobiólogos é a fadiga de mecanismos internos de percepção do movimento. Se há a fadiga do “mecanismo” de percepção da imagem em sentido horário, o “mecanismo” anti-horário o substitui, e assim sucessivamente.Na imagem abaixo, a silhueta da mulher é retocada para que tenhamos a perceção em profundidade. É isso que o cérebro tenta fazer (com razoável sucesso, podemos dizer)