sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

DESPERTANDO O CONHECIMENTO - Sonhos podem revelar como anda a saúde e dar pistas sobre doenças

SONHOS E A SAÚDE


Como produtos do cérebro, sonhos sofrem influência do organismo como um todo e podem ser alterados por uma descompensação física







Como produtos do cérebro, sonhos sofrem influência do organismo como um todo e podem ser alterados por uma descompensação física 




Por muito tempo, a interpretação dos sonhos foi considerada apenas uma superstição. 

Para descobrir o significado do que se processa na mente durante o sono, há quem apele para astrologia, tarô e adivinhação. 

Mas, cada vez mais, o estudo do universo onírico ganha status científico. 

A exemplo da psicanálise, a medicina também é capaz de dar explicações sobre os sonhos e, mais ainda, de relacioná-los ao estado geral do organismo. 

Em outras palavras, isso quer dizer que sonhar com o mesmo tipo de situação frequentemente pode ser uma pista confiável ou até um sintoma precoce de diversas doenças.

— Os sonhos nada mais são do que pensamentos que ocorrem enquanto estamos dormindo. 

Como produtos do cérebro, eles sofrem influência do organismo como um todo e podem ser alterados por uma descompensação física — explica o neurologista especialista em sono Luciano Ribeiro Pinto Júnior, do Instituto do Sono, em São Paulo.


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Ativação cerebral


Segundo o médico, durante o sono, algumas estruturas cerebrais chamadas “pensantes” são desligadas.

Outras, mais profundas e ligadas a emoções e sentimentos, são ativadas. É a estimulação dessas regiões que justifica a ocorrência dos sonhos.

— Por causa dessa outra consciência que aflora, muitas vezes eles vêm de forma truncada, cheios de aspectos simbólicos — diz.

Pessoas cujos sonhos são semelhantes e repetitivos devem procurar orientação médica para investigar se existe no organismo algum processo danoso à saúde física ou psicológica.

Para Luciano Ribeiro Pinto Júnior, a medicina ainda esbarra na barreira da psicanálise para interpretar os signos oníricos, mas a incorporação progressiva de uma visão neurobiológica à psicologia pode estreitar tal fronteira.

— Quem sabe um dia não teremos uma medicina dos sonhos? — anseia o neurologista especialista em sono.

Significados diferentes para cada pessoa

De acordo com o psicólogo João Oliveira, autor do livro “A importância dos sonhos: interpretação e práticas para a saúde plena”, é preciso cautela ao tentar entender o significado do que se passa na mente durante o sono.

Não existe dicionário de sonhos. Eles não significam a mesma coisa para todo mundo, pois trazem símbolos que estão associados às experiências de vida e à cultura de cada um alerta o psicólogo.

Na psicanálise, os sonhos são vistos como manifestações que visam a compensações dos estados psicológico e metabólico do organismo.

É uma forma de ajustar a máquina, que sempre está em busca da homeostase (equilíbrio das funções). Sonhar, assim como o sono em si, também é um processo restaurador para o corpo — completa.

É na fase do sono REM (sigla em inglês para movimentos oculares rápidos) que os sonhos geralmente se processam. 

Assim, estima-se que os primeiros deles aconteçam entre 70 e 120 minutos após a ida para a cama, e que a maioria se concentra na segunda metade da noite.

No entanto, hoje sabe-se que é possível sonhar fora do sono REM, o que explica o fenômeno durante cochilos.

Segundo João Oliveira, pessoas que não se lembram de seus sonhos também precisam procurar a ajuda de um profissional no assunto.

— Sonhar é necessário para a saúde plena. Mesmo que seja um pesadelo, tem um propósito e nunca deve ser considerado negativo. 

Não se recordar de nada ou quase nada também é sinal de que algo errado está acontecendo — diz o especialista.

Os sonhos podem detectar doenças
Como os sonhos podem detectar sinais de doenças. Quem desvendou o significado do tormento onírico foi a equipe do neurologista Luciano Ribeiro Pinto J


Depois de sucessivas noites sonhando com uma banana entalada na garganta e acordando com uma nítida sensação de sufocamento, a mulher resolveu investigar. Que raios aquele pesadelo queria dizer? Seria a revelação de alguma perversão sexual até então oculta, como suspeitaria um discípulo do austríaco Sigmund Freud (1856-1939), o pai da psicanálise? Achava que não. Em vez de psicanalista, procurou um médico. E descobriu que, no momento do devaneio inconsciente, aconteciam na vida real pequenas paradas respiratórias -- a apneia do sono -- que provocam microdespertares ao longo da noite.

Quem desvendou o significado do tormento onírico foi a equipe do neurologista Luciano Ribeiro Pinto Júnior, do Instituto do Sono, em São Paulo. "Sonhos desagradáveis como esse podem ocorrer como consequência de um desconforto físico ou até de uma doença", diz. Ou seja, em alguns casos o enredo dessa maquinação da mente adormecida pode ter uma relação direta com o estado de saúde do indivíduo. Estudos realizados nos últimos anos permitem especular que um registro regular do seu conteúdo possa ajudar no diagnóstico de diversos problemas.

O dormir é um processo neurológico complexo. Hoje sabe-se que, das cinco fases do sono pelas quais passa qualquer pessoa que dorme dentro da normalidade, o período dos sonhos é uma das mais importantes como indicador de saúde. Na primeira metade da noite, ondas cerebrais lentas predominam e podem ocorrer sonhos dos quais a maioria não se lembra. Depois vem o intervalo dos sonhos mais vívidos, a chamada fase paradoxal do sono, que é mais conhecida pela sigla em inglês REM: rapid eyes movement — movimento rápido dos olhos. Nesse momento, o corpo fica totalmente relaxado, mas a mente está a toda. Uma redução na latência do sono REM é hoje um marcador biológico da depressão, por exemplo.

Por falar em depressão, pesquisadores alemães confirmaram que os depressivos tendem a ter sonhos com tons mais negativos e com mais experiências desagradáveis. O mesmo grupo de cientistas demonstrou que a gravidade dos sintomas do distúrbio era diretamente correlacionada à intensidade das emoções nada positivas nos sonhos -- temas como agressão e morte eram frequentes. Além da tristeza sem fim, entram na lista de encrencas suspeitas de trazer consigo sustos na calada da noite Parkinson, Alzheimer, esquizofrenia, enxaqueca, asma, ansiedade e bronquite, só para citar algumas.

As perturbações nos sonhos são, de fato, marcadores extremamente sensíveis de desequilíbrios mentais e físicos. "De alguma forma o cérebro, ao sonhar, detecta os processos biológicos alterados antes mesmo de eles chegarem à consciência", diz o psicólogo Péter Simor, pesquisador da Universidade de Semmelweis, em Budapeste, na Hungria. Embora os estudos também procurem identificar padrões de sonhos conforme a constância, a repetição e os temas, o que tem se mostrado mais relevante para a medicina é o teor emocional das histórias sonhadas e o que a pessoa sente ao acordar.

Até o momento, a ciência acumula bem mais descobertas sobre as funções do sono do que dos sonhos. E para dormir tranquilo os médicos recomendam um ritual relaxante antes de ir para a cama: baixar a intensidade da luz, ficar em silêncio, ler ou ouvir música calma e dar um jeito de não pensar nos problemas na hora de apagar. E, se sonhar, anotar tudo no dia seguinte. Nunca se sabe.

Freud e Jung

Sigmund Freud foi o primeiro a dar um caráter científico à investigação do conteúdo onírico, com a publicação do livro A Interpretação dos Sonhos, em 1899. Para Freud, eles seriam uma tentativa de realizar desejos reprimidos, especialmente os da infância. Já para seu discípulo, o suíço Carl Gustav Jung (1875-1961), os sonhos eram uma ferramenta da mente na busca de equilíbrio. Sua teoria da compensação ditava que, na existência de um desbalanço entre a mente consciente e o inconsciente, ou seja, uma neurose ou uma psicose, a psique teria a missão de lançar pistas para a mente, na tentativa de consertar — ou compensar — o problema. Essas pistas viriam na forma de sonhos.

Efeitos colaterais oníricos

Antidepressivos
Os inibidores seletivos de recaptação de serotonina são atualmente os remédios mais usados no tratamento de distúrbios psiquiátricos como depressão, ansiedade e bulimia. Eles podem dar a sensação de que a pessoa está sonhando muito mais que o normal, e os sonhos podem ser mais intensos. Mas um ajuste na dose ou nos horários da medicação pode resolver o problema. Já os antidepressivos tricíclicos diminuem e chegam até a suprimir o sono REM.

Tranquilizantes e ansiolíticos
Esses remédios provocam sonolência e tendem a encurtar o sono REM. Largar o tratamento depois de já ter desenvolvido dependência ou tolerância à medicação também pode alterar gravemente o padrão de sono, incluindo uma fase REM espichada, mais sonhos e despertares durante a noite. Tanto quanto ocorre com os antidepressivos, o efeito ricochete será maior quanto maiores forem as doses e a duração do tratamento. Pesadelos estão entre os efeitos colaterais relatados por usuários.

Fonte: Saúde 


Curiosidades
Animais mamíferos, em geral, têm capacidade de sonhar

Animais mamíferos, em geral, têm capacidade de sonhar 
Dormir com a televisão ligada favorece a ocorrência de pesadelos. 

Os sons emitidos pelo aparelho passam a ser incorporados pelo cérebro, que cria situações para justificar os barulhos.

Comer um pequeno pedaço de chocolate amargo antes de dormir ajuda a lembrar melhor dos sonhos ao acordar. 

O alimento contém substâncias que melhoram a comunicação neural.

A chance de lembrar de um sonho é maior quando despertamos na fase do sono REM, diz a pneumologista Fabíola Schorr, do Centro de Medicina do Sono do Hospital do Coração de São Paulo.

Pessoas que passam por traumas podem começar a ter pesadelos que vêm com a função de dessensibilizá-las, para ajudá-las a conviver melhor com a situação.
Por meio de técnicas específicas, é possível induzir o que vai ser sonhado e visualizar a solução de problemas.

Outros animais mamíferos também são capazes de sonhar.

Camilla Muniz
Foto: Wania Corredo / Arquivo
Foto: Camilla Maia
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