sábado, 20 de setembro de 2014

PENSAMENTOS, POESIAS E REFLEXÕES - Ode ao Vinho - Pablo Neruda

Ode ao Vinho 




Vinho cor de dia, 
Vinho cor de noite,
vinho com pés de púrpura
ou sangue de topázio,
vinho,
despedaçado filho
da terra,
vinho, liso
como uma espada de ouro,
suave
como um desordenado veludo,
Vinho 
encaracolado
e suspenso,
amoroso,
marinho,
nunca coubeste numa taça,
num canto, num homem,
coral, 
gregário
 és,
e quando menos, mútuo.

As vezes
te nutres de lembranças
mortais,
em tua onda
vamos de túmulo em túmulo,
canteiro de sepulcro gelado,
e choramos
lágrimas transitórias,
mas
teu formoso
traje de primavera
é diferente,
o coração sobe aos galhos,
o vento move o dia,
nada fica
dentro de tua alma imóvel.
O vinho
move a primavera,
cresce, como uma planta, a alegria,
caem muros,
penhascos,
fecham-se os abismos,
nasce o canto.

Ó tu, jarra de vinho, no deserto
com a gostosa que amo,
disse o velho poeta.
Que o cântaro de vinho
ao beijo do amor some seu beijo.

Amor meu, de repente
teu quadril
é a curva cheia
da taça,
teu peito é o racimo,
a luz do álcool tua cabeleira,
as uvas teus mamilos,
teu umbigo selo puro
desenhado em teu ventre de vasilha,
e teu amor a cachoeira
de vinho 
inextinguível
,
a clareza que cai em meus sentidos,
o esplendor terrestre da vida.
 
Mas não só amor,
beijo 
ardente

ou coração queimado
és, vinho de vida,
também
amizade dos seres, transparência,
coro de disciplina,
abundância de flores.

Amo sobre uma mesa, 
quando se fala, 
a luz de uma garrafa 
de inteligente vinho. 
Que o bebam, 
que recordem em cada 
gota de ouro 
ou taça de topázio 
ou colher de púrpura 
que trabalhou o outono 
até encher de vinho as vasilhas 
e aprenda o homem obscuro, 
no cerimonial de seu negócio, 
a lembrar a terra e seus deveres, 

a propagar o cântico do fruto.


 Pablo Neruda