domingo, 29 de junho de 2014

DESPERTANDO A CONSCIÊNCIA - RELAÇÕES AFETIVAS

RELAÇÕES AFETIVAS














Sobre estar sozinho

Não é apenas o avanço tecnológico que marcou o início deste milênio. 
As relações afetivas também estão passando por profundas transformações e revolucionando o conceito de amor.

O que se busca hoje é uma relação compatível com os tempos modernos, na qual existe individualidade, respeito, alegria e prazer de estar junto, e não mais uma relação de dependência, em que um responsabiliza o outro pelo seu bem-estar.

A idéia de uma pessoa ser o remédio para nossa felicidade, que nasceu com o romantismo, está fadada a desaparecer neste início de século.

O amor romântico parte da premissa de que somos uma fração e precisamos encontrar nossa outra metade
para nos sentirmos completos.

Muitas vezes ocorre até um processo de despersonalização que, historicamente, tem atingido mais a mulher. 
Ela abandona suas características, 
para se amalgamar ao projeto masculino.

A teoria da ligação entre opostos também vem dessa raiz: 
o outro tem de saber fazer o que eu não sei.
Se for manso, ele deve ser agressivo, e assim por diante. 
Uma idéia prática de sobrevivência, e pouco romântica, por sinal.

A palavra de ordem deste século é parceria. 
Estamos trocando o amor de necessidade, pelo amor de desejo.

Eu gosto e desejo a companhia, 
mas não preciso, o que é muito diferente.

Com o avanço tecnológico, que exige mais tempo individual, as pessoas estão perdendo o pavor de ficar sozinhas, 
e aprendendo a conviver melhor consigo mesmas. Elas estão começando a perceber que se sentem frações, mas são inteiras. 

O outro, com o qual se estabelece um elo, também se sente uma fração. Não é príncipe ou salvador de coisa nenhuma. 
É apenas um companheiro de viagem.
O homem é um animal que vai mudando o mundo, e depois tem  de ir se reciclando, para se adaptar ao mundo o que fabricou.

Estamos entrando na era da individualidade, o que não tem nada  a ver com egoísmo.

O egoísta não tem energia própria; ele se alimenta da energia 
que vem do outro, seja ela financeira ou moral.
A nova forma de amor, ou mais amor, tem nova feição e significado. 

Visa a aproximação de dois inteiros, e não a união de duas metades. 

E ela só é possível para aqueles que conseguirem 
trabalhar sua individualidade.
Quanto mais o indivíduo for competente para viver sozinho, 
mais preparado estará para uma boa relação afetiva. 

A solidão é boa, ficar sozinho não é vergonhoso. 
Ao contrário, dá dignidade à pessoa. As boas relações afetivas são ótimas, são muito parecido com o ficar sozinho, ninguém exige nada de ninguém e ambos crescem.

Relações de dominação e de concessões exageradas são 
coisas do século passado. Cada cérebro é único.
Nosso modo de pensar e agir não serve 
de referência para avaliar ninguém. 

Muitas vezes, pensamos que o outro é nossa alma gêmea e,
na verdade, o que fizemos foi inventá-lo ao nosso gosto.
Todas as pessoas deveriam ficar sozinhas de vez em quando, para estabelecer um diálogo interno e descobrir sua força pessoal.

Na solidão, o indivíduo entende que a harmonia e a paz de espírito só podem ser encontradas dentro dele mesmo, e não a partir do outro.
Ao perceber isso, ele se torna menos crítico e mais compreensivo quanto às diferenças, respeitando a maneira de ser de cada um.

O amor de duas pessoas inteiras é bem mais saudável. 
Nesse tipo de ligação, há o aconchego, o prazer da companhia 
e o respeito pelo ser amado.


Flávio Gikovate 
médico psicoterapeuta